quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Chão

Fui derrubada.
Aconteceu chegando ao trabalho nessa semana, eles eram em 4 ou 5. 
Chegaram por todos os lados, me seguraram, agarram e me jogaram no chão. Eu gritava para levantar, mas eles nem ouviam, suas risadas abafavam minhas súplicas - que, a essa altura, já estavam se desmanchando em risadas também. Jovens? Uh, super. O mais velho, por volta de 6. O mais novo, 3.

O que eles roubaram? Ah, muita coisa. Roubaram sorrisos meus, roubaram mais amor por todos e trouxeram toda a felicidade que eu pude sentir naquele momento.

Toda a ingenuidade, a malícia, a malandragem e a doçura deles me encantam, me envolvem, me hipnotizam. Ah, como é bom ser criança!
Eles me contam segredos que acham que ninguém mais sabe, dizem que me amam "até o 41" (na íntegra!), me abraçam, se comportam como nenéns e, ao mesmo tempo, como adultos responsabilíssimos. 

E foi lá, no chão, que eu reparei que, mesmo que eu me esforçasse muito, jamais conseguiria descrever como é foda trabalhar com crianças e como é grande a minha alegria por isso.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Permitir-se

Ouso afirmar que o amor é o sentimento mais forte que existe.
Ele move montanhas, passa por obstáculos e suporta qualquer peso.

E eu não me limito ao amor entre casal, não. Amor de mãe, de pai, amor de irmão, amor de amigo e amor do seu amor, mesmo. Ah, e claro, amor que nasce de um relacionamento entre duas pessoas, aquele que você cuida e rega com carinho - apesar de às vezes querer arrancar a raiz fora e espalhar terra pra todo lado.

"Não mudo por ninguém. Sou assim mesmo, oras! Tem que gostar de mim do jeito que eu sou"
Ahhh, faça-me o favor! Isso não existe. Isso é coisa de gente ignorante. Defendo a ideia que de é preciso gostar da pessoa do jeito que ela é, mas, inflexibilidade é inaceitável - pelo menos ao meu ver.

O amor é isso: o amor transforma. E só o fato de você sair da inércia já é uma evolução.A troca de informações, a sintonia de almas, a passagem pela vida do outro é realmente uma coisa muito bonita. Basta olhar com mais cuidado.

O que me inspirou a escrever esse texto clichê foi um poema de uma pessoa com TOC, falando justamente do amor que ela sente por uma pessoa que, infelizmente, já não pode mais retribuir o sentimento.

Ele menciona como trancar e destrancar a porta 30 vezes era importante, ou como ligar a desligar as luzes  trazia calma.
Menciona também que quando olhava pra sua amada, as coisas ficavam claras, calmas e limpas.
E, por fim, menciona o fato de ela ter o deixado, e como o amor dela era tão importante a ponto dele deixar as luzes acessas e as portas destrancadas, com a esperança dela voltar.

Amar é permitir-se. É transformar-se.

Segue o vídeo:
http://qga.com.br/arte-cultura/2013/12/poema-sobre-o-amor-de-um-homem-com-toc


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Flor

A flor, delicada e perfumada, há de ser cultivada e cuidada.
Se a flor merece esse carinho, porque a mulher haveria de não recebê-lo?
Na ausência de atenção, as flores vão ao chão.
Cuidado com a praticidade.

O dia a dia corriqueiro é compreensível, mas abre a possibilidade de seu jardim morrer.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cheiros

Posso me teletransportar pelo cheiro, sabia? Posso mesmo.

Sentindo o cheiro de “guardado” na toalha toda trabalhada que costumávamos colocar na mesa de Natal.

Sentindo o cheiro de couro do banco do carro, misturado com cheiro de mato da rodoviária, sentido interior.

Sentindo o cheiro de grafite, de lápis, cheiro de folha impressa. Já posso senti-la quente em época de prova.

Sentindo o cheiro amadeirado de tabaco numa recepção do hotel que ficamos em Stuttgart, na Alemanha. É como se conseguisse ver o senhorzinho gordinho da recepção na minha frente.

Sentindo o cheiro de banho que sua pele fica, e como ela fica ressecada pela sua teimosia em não querer passar um creme. Ah, como eu gosto da sua pele...

E falando em creme, posso me teletransportar pro lado da minha mãe sentindo o cheiro de um determinado Victória's Secret .

Cheiro de shampoo masculino é, sem dúvidas, sinal da presença do meu pai. Ainda mais se estiver “úmido”.

Cheiro algodão molhado. Extremo demais? Me faz lembrar de uma caneca do Pikachu. Eu bebia água nela.

E cheiro de plástico. De bonecos de plástico me lembram a fase molecagem. Me lembram meu príncipe de 16 anos.

Sentindo cheiro de pêssego e de madeira  - madeira, mesmo! Tipo móvel. Só esperando ouvir a voz feminina chamando os primos para almoçar.

Sentindo cheiro de coisa antiga nas páginas de livros, é como se já pudesse imaginar a história que eu estava lendo.

Cheiro de cloro! Esse, sim, é gostoso de lembrar. Cheiro de verão, de sol, de risada, de bochecha queimada, de pele descascando. Me faz lembrar que eu queria viver de fotossíntese!


Enfim, como eu disse, é como se, por mágica, eu conseguisse reviver todo o momento. Basta fechar os olhos e olhar pra dentro. É realmente uma sensação inexplicavelmente gostosa.

Ele(a)

E ele(a), numa tentativa de garantir alguma coisa e, de certa forma, se sentir aliviado, se desculpa:

Desculpe-me por ser indecisa(o), por ficar horas planejando algo que não está sob meu controle.
Desculpe-me se te chateio com meus problemas banais.
Desculpe-me se sou banal.
Desculpe-me se às vezes – muitas – pareço estúpida aos seus olhos.
Desculpe-me se não te orgulho e se a maioria das coisas que eu faço, é de errada maneira.
Desculpe-me se tenho preguiça.
Desculpe-me se eu não sou mais suficiente. Gostaria de ser.
Desculpe-me pelas saudades.
Desculpe-me pelos equívocos.
Desculpe-me, mas não sei o que fazer comigo.
Desculpe-me, mas, cansei de me desculpar.
E desculpe-me e por isso também.

E ele(a), o que faz?
A(o) desculpa. 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Névoa

Não dá.

Nem escrever eu consigo. Minha cabeça não pensa... Só ouve.

E são essas vozes das quais eu tenho que parar de dar ouvidos. Elas sussurram, cochicham e às vezes gritam. Como parar de ouvi-las se fazem tanto barulho e tanto sentido? Ou não fazem... Como parar de cultivar as minhocas se alimentando dos meus pensamentos? Onde está o inseticida?

Em contrapartida, cultivo uma rosa no meu coração. Pra falar a verdade, eu ainda acho que ela é um brotinho. Um boiadeiro gentil quem plantou.

Voltemos a falar da minha cabeça ouvinte e não pensante: como posso estar alienada dentro do meu próprio corpo? Sendo eu mesma a minha “entrigueira”. Essa névoa bem que podia desaparecer e me deixar ver as coisas como elas são. Sem minhocas e sem vozes.


Preciso de um banho que lave minha alma. Preciso de uma mudança interna grande. Preciso... Preciso? Ai, que desagradável sempre precisar de alguma coisa! Que coisa chata. Sempre pedindo, nunca fazendo. Preciso parar de precisar! Isso sim. 




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Era uma vez um furacão

Era uma vez, uma menina, que se chamava (minha mãe costumava a começar uma história assim, desse jeito, pausadamente)... Bem, não vem ao caso o nome dela.

Ela tinha saúde e bons amigos. Passou muito tempo da sua infância como um molequinho: brincando de luta, de correr, de arriscar. Claro, também tinha suas barbies e bonecas parecidas com bebês – que ela dava banho, trocava de roupa e dava mamadeira.

Não ligava muito pra maquiagem e usava qualquer coisa que estivesse mais fácil de pegar no guarda-roupa. Era diferente sim, e, o mais legal, é que ela não se ligava disso – ou se ligava, se não importava, não que eu me lembre.

Foi depois de encontros em meio à puberdade que a menina passou a perceber como a vaidade era essencial, como as roupas faziam diferença e a como a singularidade (utópica) era importante e como era “out” não ter opinião própria (apesar de a alienação vigorar).

 Isso pode ter feito a menina perder sua naturalidade. Se perder.

E mesmo perdendo sua naturalidade, isso caminhou com ela desde então, como algo de sua natureza. E infelizmente, isso acompanha a maioria das pessoas. Só é com pesar que ressalto isso, pois conheci a menina antes da mudança.

Existe um equilíbrio enorme na vida dela. Um que explode e outro que agüenta. Eles vivem brigando e deixando a menina confusa, cega e com dúvidas. Esse equilíbrio nada mais é do que as pessoas que ao redor dela.

Hoje, receosamente, arrisco afirmar que a menina é medíocre. Que os picos de felicidade e tristeza brincam de montanha russa dentro dela, e que é alto o valor material das coisas. Que ela busca ser uma pessoa melhor, mas o pote de moedas de ouro está longe demais.

A menina sente falta. A menina sente carência. A menina se sente vazia. A menina não se sente... Mas a menina sabe que não está na pior (ou pelo menos deixa  que as outras pessoas a convençam disso).

A menina tem uma boa visão do futuro. Isso ela faz bem, ela pensa pra frente.

A menina, então, vira mulher e constrói sua vida. O sonho de ser reconhecida e de ter seu lugar no mundo é realizado. Ela continua sendo boa no que faz e cada vez chega mais perto do pote de moedas de ouro!

A mulher, como observadora nata, tem muito que oferecer aos seus queridos familiares mirins, transmitindo toda sua sabedoria e torcendo para que suas palavras não surjam efeito tardio.

Então, a senhora acaba em uma casa grande e branca, com vários filhos e netos e cachorros. Com vários porta-retratos de felicidade espalhados pela casa. Com vários raios de luz saindo do coração dela. Com a consciência de que as coisas acontecem do jeito que tem que acontecer... Que as pessoas passam pelo o quê passam por algum motivo... E o que importa é como você leva isso pra sua vida.